terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O Pássaro e o Cano


White browed Wagtail, upload feito originalmente por K. Shreesh.

Em 1983 o sertão sofreu uma grande estiagem (seca). Eu tinha 7 anos nessa época. Passava o fim de ano no interior do estado, na casa dos meus avôs em Pesqueira. Meu pai costumava me levar em caminhadas na serra para caçar, andar a cavalo, pescar em pequenos riachos, etc., e estávamos na fazenda de um primo do meu pai, Seu Chico.
Como era mês de dezembro, verão, mês seco, um dos mais secos do ano na região, o cenário na fazenda não era um dos mais bonitos. O gado estava magro. O pequeno riacho que cortava as terras era agora apenas um monte de lama ressecada, junto à vegetação queimada. O azul do céu sem nuvens contrastando com aquela bola amarelo-te-queimo.
No meio desse cenário de mandacarús e xique-xiques, havia um passarinho, pequeno, preto e branco, pousado numa parte de um grande cano que cortava a fazenda levando água da barragem para a cidade. Esse pássaro bicava compulsivamente o cano de ferro, que devia ter uns 5 cm de espessura.
Fiquei parado ali por um tempo, olhando aquele pássaro e tentando entender o que ele fazia. Não havia comida ou insetos ali. O cano deveria estar fervendo. Tudo que o passarinho conseguiria era machucar e quebrar seu bico. Sede... Logo veio a resposta. Uma sede sufocante. Tão forte que a angustia que lhe era imposta superava a dor de tentar alcançar aquela água ali.
Não imagino como aquele pássaro sabia que ali corria água. Instinto ou talvez seus ouvidos pudessem escutar o som da água passando ali por dentro. Levantei de onde estava e pedi uma cumbuca ao Seu Chico. Enchi-a com um pouco d'água e levei até o cano. Mesmo me aproximando do cano, o passarinho não saiu de lá. Por cansaço ou pelo mesmo instinto estar lhe dizendo que eu iria ajudá-lo. Deixei lá a pequena cumbuca com água e o pássaro logo subiu nela e matou sua sede.
Não sei que espécie de pássaro era aquela. Conheço bancos de dados, não pássaros, a não ser que seja um galo, um papagaio ou uma arara. Mas aquele pequeno pássaro me mostrou, ainda quando eu era criança, até onde podemos chegar quando chegamos ao extremo. Ignorando a dor e a razão... E que nesses momentos ainda existem pessoas que podem nos ajudar.

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On 1987 the Brazilian Hinterlands suffered a great dry weather season. I was seven years old that time. It was end of the year and as always we gone to my grandparent house in Pesqueira, at countryside. My dad used to take me on walking through the hills, to ride, to fish on the little rivers there, etc., and we were at the far of his cousin, Mr. Chico.
We were in December, summer, dry season, that year one of the driest years on the region. The scenery on the farm wasn't one of the prettier that I had seen. The cow was thin. The little river which did cross the land now was just a lot of dry mud, mixed with the burned vegetation. The blue of the sky without clouds contrasting with that big yellow-burn-you ball.
In the middle of this scenery of Mandacarus and Xiques-Xiques (proprer region vegetation), was a bird, little, black and white, perched above a large iron pipe that did cross the farm taking water from the barrage to the city. This bird pecked compulsively the iron pipe, which should have near 5 cm (1,97 inches) density.
I stood there for a while, watching that bird and trying to understand what were it's doing. That are no bugs and the pipe might be damn hot. All that bird would get will hurt and break its beak. Thirst... That was the answer. A swallowed thirst. So strong that the anguish impost to it was bigger than the pain for reach the water inside.
I can't imagine how the bird would know how there was water there. Instinct maybe, or its ears could listen the sound of the water going through the pipe. I got up and ask Mr. Chico a calabash gourd. I filled it with water and took to the pipe. Even with me approaching it, the bird didn't get out from there. Maybe it was too tired or its instinct was telling it that I was there to help. I left the water there and suddenly the bird gone up on it to drink.
I don't know which species of bird was it. I know about Databases, not birds. The only birds that I can distinguish are chickens, parrots and eagles. But that little bird showed me, still when I was a little children, where we can get when we're pushed to the extreme. Ignoring the pain and reason... But it'll still exist people which will help us.

Um comentário:

  1. In 1987 you were seven years old. The pipe was 5 cm in diameter.

    Taking Spanish has taught me the true meaning of the term "irregular verb".

    In New England it is a common practice to leave out seeds and dishes of water for birds. We have special basins called bird baths, I don't know if you know what I am talking about. They even sell heaters to keep them warm in the winter.

    My sentiments exactly, by the way.

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